O jogo onde todos saem derrotados
Por Carlos Aquino e Flavyo Dowglas
Se você se dispõe em seu cotidiano a jogar qualquer tipo de jogo, sabe que no fim ou vai sorrir com a vitória ou lamentar a derrota. Seja nos campos, nas quadras, no tabuleiro, no fim só uma pessoa ou equipe vence. Mas o jogo político é muito diferente, tem suas peculiaridades. Comparando com o Xadrez as peças são as pessoas e os políticos são os jogadores. Temos as peças mais poderosas, que não se abalam com qualquer jogada, e as mais frágeis, que na linha de frente já estão condenadas aos males do jogo. Todo movimento, por mais simples que possa parecer, altera o rumo de todas as peças. Por isso a importância de pensar e repensar os jogadores que vamos escolher através das urnas. Para nossa infelicidade, hoje, o jogador mais poderoso de todos escolhe brincar com suas peças.
No momento em que enfrentamos uma pandemia que já ceifou 1,2 milhão de vidas no mundo e a vitória mais aguardada é a chegada da vacina, o presidente Jair Bolsonaro mostra que a vitória pessoal é mais importante. No mesmo dia em que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou a paralisação dos testes da vacina CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório Sinovac com uma parceria com o Instituto Butantan em São Paulo, Bolsonaro comemorou. E essa não foi a primeira manifestação contrária a vacina chinesa que recebe investimentos de um dos seus maiores rivais políticos, o governador do estado de São Paulo, João Dória. Em resposta a um comentário em rede social de um rapaz que dizia que “a China é uma ditadura” e por isso o investimento não deveria ser feito, Bolsonaro disse que a vacina não seria comprada. Em live chegou a chama-la de “vacina do Dória”, e depois das pressões recebidas de vários setores da sociedade disse que só seria comprada após ser “comprovada cientificamente”. Seria cômico se não fosse trágico.
A última frase poderia passar aos desavisados a imagem de um governante que se importa com o bem-estar da população, mas não é o caso. Onde estava a importância da ciência quando o presidente fez propaganda por diversas vezes da Hidroxicloroquina mesmo quando diversos estudos apontavam a não eficácia do medicamento em pacientes com covid? Onde estava a importância da ciência quando todos os especialistas alertavam para a importância do uso de máscara em locais públicos e de não promover aglomerações e o presidente não só promovia como apertava a mão de seus simpatizantes? Talvez a ciência estivesse tão bem escondida como um dia o Queiroz já esteve. Quem tentou dar luz a ela e trazer o mínimo de razão e a visão técnica só ganhou uma visita no RH e uma carta de demissão.
A quem apostou todas as suas fichas em um jogador magnífico que poderia mudar para sempre os rumos do jogo digo que falharam. E não há problema nenhum em admitir o erro, o jogo político te dá a oportunidade de ganhar fichas bônus e apostar novamente de 4 em 4 anos. Agradeça por ter hoje essa regra e saiba utilizá-la. Quem coloca os peões na linha de frente, quem vibra com uma derrota, quem se mostra insensível a dor dos que perderam alguém, merece o seu aperto de mão quando a vacina vier (seja de qual nacionalidade for) e as eleições chegarem pedindo o seu voto? “Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”. E assim como no dia 28 de outubro de 2018 é mais uma que os brasileiros perdem.
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